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sexta-feira, 26 de setembro de 2008

(6)

Olá querida,

estou escrevendo esta carta para comunicar que bloqueei (e excluí) você do meu msn (e, consequentemente, do meu orkut, hi5, e demais sites ou programas de relacionamento virtual). Achei por bem avisar, antes que você soubesse por outra pessoa, ou através daqueles programinhas modernos, que indicam quando você é bloqueado por alguém.
Quero que você entenda que não é nada pessoal, apesar de que sempre achei você um pouco metida a besta. Sabe como é, a garota que gosta de aparecer, a mais bacana, a mais bonita. Isso realmente é o que você acredita que é. Mas você é gente boa, de verdade. A não ser pelas diversas vezes que você fez aquelas suas piadinhas sem graça, em público, deixando toda a roda de friends constrangida.
Apesar desses detalhes, eu acho que o tempo em que andamos juntas nos fez bem, não é? Você é uma garota popular (claro, eu sou mais popular que você), e pessoas populares devem sempre andar umas com as outras, você sabe, pra aumentar a popularidade.
Só não consigo entender, até hoje, como você conseguiu se tornar tão conhecida. Você só namora caras idiotas e as suas roupas não são tão legais como eu disse que são. Essas suas saias rodadas, colares de semente, pulseiras grotescas. Esse estyle neo-hippie, tá super fóra. Nada contra, claro. Acho que cada um deve ter seu estilo próprio. Só que você exagera nos penduricalhos. Aliás, acho bom você saber que aquela saia (que cor era aquela? glacê?) que eu disse que é chique, da moda... bem, não é. Na verdade você fica terrível com ela. Deveria parar de usá-la, conselho de amiga.
E já que estamos falando de roupas. Sabe quando você me pediu a blusa lilás da Colcci emprestada? Eu disse que tudo bem, que não ligava de emprestar minhas roupas para as amigas e tal. Bem, querida, todo mundo liga. Eu liguei, e liguei mais ainda quando você devolveu a saia toda amassada. Muita falta de educação. Se eu fosse você, pararia de pedir as coisas emprestado. Ninguém gosta.
E sobre essa história de gostar... Eu não queria tocar no assunto, já que é problema seu. Mas aquele cara com quem você anda ficando... tem que ter estômago né, dear? Ele tem um corpão e tudo, e uma boca que, fechada, diz “vem, e me beija”, mas eu realmente não fui muito sincera quando disse que você deveria mesmo ficar com ele. O cara é um pé-no-saco, e piora quando ele começa a tocar (como é mesmo o nome daquela bandinha cansativa?) ermanos, catrumanos, los bambas, não lembro. Muito chato. E, como se não bastasse, ele fuma, tem cabelos grandes e curte rock! Eca. Bando de “sou-alternativo” que não tem nada a ver. Hello-ow! Eu entendo que a nossa amizade deve mudar um pouquinho depois que você ler isso. Mas espero estar sendo suficientemente sincera e clara, a ponto de você não ficar com raivinha de mim. Ok, darling?
A propósito, o corte do seu cabelo não combinou com o formato do seu rosto. E olha que nos últimos dias ele anda ficando redondinho hein, beibe? Você por acaso está grávida do “alternative-boy”?
Bom, em todo caso, espero que esteja. Porque hoje mesmo eu enviei uma messenger-up, do meu pager, claro, para todas as garotas da faculdade, contando a novidade. =)

Então, acho que é só. Qualquer coisa você pode me mandar uma messenger-up. Ou melhor, me liga, porque bloqueei você no meu pager também, ok?

Pink kisses, mui mui sinceros.

=)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

vida, louca vida (?!) - terceiros

Sou Estela Pier, de segunda a sexta. E não pelo fato de trocar de sexo nos fins de semana, resolvi que aos sábados e domingos seria apenas Têta, e ponto. É engraçado, gera trocadilhos, é uma puta sacanagem, mas eu gosto. É como se chamar Bucetildes, ridículo, mas existe. Quando eu era pequena disseram que esse seria meu apelido, e assim é. Sempre fui do tipo certo, aquela mulher que se quer pra casar. O problema é bem esse, eu não quero me casar. Pelo menos não agora. Quero fazer loucuras, ter dezenas de amigos, sair, dançar, transar, beber, amar (por que não?) etc etc etc. Então, decidi que continuaria sendo a mulher pra casar, até sexta-feira. E que nos finais de semana daria, enfim, espaço para que o monstro me tomasse o lugar. E já há quase dois anos sou assim. Responsabilidade, trabalho, faculdade, têm seu lugar reservado. À minha outra vida, nada se mistura. Pelo menos, nada que possa estar sob o meu controle. Estes, que conto aqui neste blog, fogem à regra. São infortúnios que eu não posso controlar. Amores platônicos, relacionamentos inesperados, atitudes impulsivas, paixões em ebulição, o amor.
Acho bom, aqui, fazer um “pequeno” parágrafo para explicar um pouco sobre como eu sou. Assim, vocês poderão entender muita coisa que aconteceu e acontece na minha vida. Nada que não seja comum na vida de qualquer pessoa, em plena tenra idade, principalmente. Mas que, como boa pisciana, fantasio e recrio da forma como quero. O que deixa a minha vida fabulosa, colorida e improvável. Pelo menos pra mim. Como eu disse, sou pisciana, sonhadora, descolada, apaixonada. Adoro sexo, mas não me satisfaço com o casual. Gosto do deitar ao lado, do sussurrar ao ouvido, do carinho nas costas, da massagem nos pés. Gosto dos mimos. Não sou muito de regras e horários, e prefiro me arrepender de coisas que fiz, a me arrepender de nunca tê-las feito. Não ligo para o que dizem, e não sou influenciável. Sou impulsiva, muito. Mas estou sempre em dúvida. Contraditório, mas é. O mundo dos relacionamentos me é completamente estranho. Nunca sei se gosto, se quero, se dá. Um problema. “Ontem tinha dúvidas. Hoje... não sei”. Esta sou eu. E, no geral, as pessoas até gostam de mim, apesar das complicações. Eu não tenho um futuro definido, nem pretendo tê-lo. Trabalho, faço faculdade, leio, me divirto. E das diversas coisas, entre certas e erradas que eu me meto a fazer, acredito que muitas são responsáveis pelo meu crescimento, amadurecimento, pela construção do que eu devo ou não devo ser. É por isso que não tenho medo de fazer, de falar, não estou nem aí. Porque sei dos meus limites, e sei que tudo o que a gente faz é uma parte de nós mesmos. Tá, poético. Mas continuemos.
Hoje, eu amo. Diversas pessoas. Entre elas, homens. Os homens são como presente de grego. Você acredita ser uma coisa divina, um presente dos céus, mas se dá mal. E sei que eles pensam a mesma coisa sobre as mulheres. É só por isso que eu os procuro, e me deixo ser procurada. Infortúnio. Até aí tudo muito normal. Meus problemas começaram quando comecei a viver de platonismos. E que saco é. Me apaixono por homens que mal conheço, ou que conheço mas estão além do que eu posso ter. Não que eu não possa ter qualquer homem que quiser (quer saber? Qualquer mulher pode. Descobri isso noite passada), mas há tipos que eu simplesmente descarto. E ando me apaixonando por esses também. Até aí eu sou feliz. A cada semana estou com um novo namorado, melhor de cama que o anterior, diga-se de passagem. Novos filhos, novas férias, nova vida. Tudo aqui, dentro da minha cabeça. E quando eu digo que sonho acordada todo o tempo, não considerem exagero. Eu sonho. Mas essa freqüência é de agora, cinco ou seis meses, por isso ainda curto tudo, e acho engraçado. Porque acho que ainda tenho cura.
É claro que tem uns caras especiais. Uns que ficam, deixam marcas. Mesmo que você nunca tenha chegado perto de beijá-los. Sexo? Nem pensar. Jamais. Estes nos fazem tremer mãos, pés, coração. Verdade. Aposto que vocês sabem bem o que é isso. Ah, o amor! Com uma pequena diferença: comigo, é paixão. E paixão cem por cento platônica. Sei disso porque, há poucas semanas, uma de minhas paixões platônicas perdeu o platonismo. A vítima também se apaixonou por mim, e juro que achei que pudesse dar certo. Só que não deu. Tivemos um relacionamento intenso, embora curto, bem rápido. E tudo o que dilacerava em mim, aquela coisa da emoção, do desejo... tudo isso acabou na primeira transa. E pá. Eu sei, já me chamaram de insensível, exigente, do escambau. Mas foi o que aconteceu, e não foi o primeiro. Teve um cara da internet, teve o outro dos telefonemas, etc etc etc. Mas não é que eu não quero, juro. “Eu procuro um amor, que ainda não encontrei, diferente de todos que amei”, e dá-lhe Frejat. Juro que sou assim. E a culpa não é minha se no fim, nada dá certo. “Você anda muito exigente. Inventa defeitos e aumenta os que já existem. Assim, nem Jesus Cristo é homem pra você”. E pá, jogam na minha cara. E não seria mesmo, já que não podia transar. O ponto positivo é: nunca me faltaria vinho, e aquele cabelo é bem charmoso. E assim vai. Hoje amo um, amanhã outro, e tudo muito de longe. Chegar perto gera desastre. Tava até aqui pensando com quem eu estava saindo no dia 11 de setembro, e tal. Acho que nem Murphy perde tempo mais comigo, “com essa daí nem tem pra onde dar mais errado”. Mas é.
“Cuidado! Área de risco!”, é o que deveria ser tatuado na testa de todos os homens do mundo, ou na genitália, tanto faz. Já que, acredito, muitos deles pensam com o que tem lá, o que desmistifica a cabeça e bla bla bla. O pior é que a gente sabe, mas vai e... vai. Quando vê já foi. “Se for, já era”, segundo Chorão. Fóda é que tudo só é legal e engraçado muito tempo depois. Na hora, dói. Desastroso. E, quer saber? Os platônicos doem tanto quanto, ou mais. Juro. A parte boa é que você nunca vai ligar, alterada, implorando “volta que eu te amo” (é, já fiz isso também), porque você sabe que ele nem sonham que você existe. Ou vocês são amigos, mas ele não imagina o quanto você é apaixonada por ele, etc etc etc. E é isso.
Bom, como o meu primeiro post já ultrapassa os limites de um texto que qualquer preguiçoso daria conta de ler, paro por aqui. Me apresentei, e pretendo contar “como vai você, eu preciso saber da sua vida”. Sem maiores pretensões (editoras podem entrar em contato pelo e-mail), a não ser abstrair minhas próprias lembranças e experiências através das palavras.
Até a próxima.


“A beleza é aquele arrepio no braço. Você vê, e tudo parece estar à flor da pele.”

terça-feira, 1 de julho de 2008

ticidade

Cheguei em casa cheia de vontades! “Tá doida menina moça? Pegô o teste agurinha e já tá querenu desejo?”. D’Jana me olhava com cara de riso. E tinha razão. Uma felicidade sem igual me tomou conta quando vi o POSITIVO no papel. P-O-S-I-T-I-V-O. Já queria ter oito, nove meses! Não conseguia parar de olhar a barriga um só minuto. “Se tu fica olhanu ela num cresce, viu?”. Vi D’Jana! Mas não me importo. Não me importo que me digam para não correr, pular, andar de bicicleta, comer manga verde! A felicidade é grande demais para achar que alguma coisa pode dar errado. “E o pai fia? Já sabeu?”. E ‘sabeu’ D’Jana? E quer saber? Nem tento. Nem falo nada. Diria, há dois ou três meses. Agora? “Crio sozinha D’Jana!”. E é isso. A felicidade é grande demais para achar que alguma coisa pode dar errado.
Eu estava viajando no tempo. Parei num bordel de beira de estrada e transei com a primeira puta loira que passou na minha frente. E ela me disse asneiras a noite inteira. “Como as putas são burras!”, foi o que pensei enquanto ela dormia de pernas abertas ao meu lado. “E o que sou eu, se não também burro? Por que eu tinha que parar aqui?”. Duas da madrugada. Peguei minha jaqueta, joguei uns trocados no chão do quarto e saí. O frio da estrada fez com que os vidros do carro ficassem embaçados. Entrei novamente no quarto. “Porra de porta barulhenta!”. Desse vez não teve jeito, a mulher acordou. “Tá inu embora?”. E aquela visão perturbadora me enojou. Fétida, de poucas roupas, cabelos embaralhados, a pintura dos olhos mais parecia um hematoma antigo. “O dinheiro tá no chão.”. Fui pensando nas tantas belezas que já me pertenceram. “O mundo dá voltas. E agora você transa com uma qualquer. Seu podre!”. É cada uma que a gente faz e fala quando está sozinho.

domingo, 1 de junho de 2008

Dia dos namorados (leia se for solteiro)

Então chega o dia dos namorados! Nas vitrines das lojas, nas propagandas da TV, nas músicas da rádio... Tudo lembra o amor, o romantismo e tudo o que se pode relacionar a eles. A última semana de maio comporta os dias oficiais da apreensão. Os que namoram ficam intranqüilos com a dúvida sobre o presente. Os solteiros ficam desesperados à procura de alguém que os peça em namoro [ou a quem podem pedir] antes que chegue o dia D!
Para quem tem namorado(a), tudo está uma beleza. A minha única dica é: procure ficar calma(o) durante as semanas anteriores ao dia dos namorados. Sem ataques de ciúmes, sem brigas, sem gritaria... Você, com certeza, não está afim de ficar solteira(o) nessa época do ano! Então seja gentil, e reze por paciência diariamente.


Para os solteiros, mais uma invenção que tira a calma e a última mísera alegria de se achar ‘livre’. E a defesa é complicada. Não há como se esconder, não! É aquela velha história de que “tudo ao redor me lembra você”. Aí, se você não namora há algum tempo e chega à véspera do grande dia sem conseguir alguém a quem presentear, começa a se sentir feia(o), sozinha(o), angustiada(o)... E vem a pior parte afinal: você se abandona na sua cama, numa tarde nublada de domingo, o Rodrigo Amarante gritando “meu amor não sou tão só assim” no seu ouvido, a nutella pela metade, o celular [com volume máximo] não toca, o último cigarro em cima da escrivaninha... Fudeu! Você se jogou durante três semanas consecutivas naquele cara interessante do orkut, na gatinha de pouca massa cinzenta do msn, na garota magrela sete anos mais nova que te passou o número do telefone [sem você pedir] na semana passada, apelou pro ex-ex-namorado que você não via há quase cinco anos [e, adivinha! Ele tem namorada...], fique calma(o) companheira(o)! Nem tudo está perdido! Esse texto foi produzido por você! E para você! Isso mesmo... Nessa época do ano todo mundo escreve o amor, descreve o amor, enobrece os relacionamentos, o namoro, a vida a dois. Mas lembre-se! Existem milhares de pessoas solteiras no mundo. E, se você é uma delas... Admita! E seja feliz [mesmo assim...]. Inclusive no dia dos namorados.



Todos os solteiros reclamam das mesmas coisas, sofrem as mesmas dores, sentem-se sós domingo à tarde, sentem falta de 'conchinha' quando chega a noite... Até aquele seu melhor amigo galinha, que finge que nunca ama. Acredite, ele tranca o celular no quarto pra se segurar e não ligar pra garota no dia seguinte. Até ele, sofre as periódicas crises da vida de solteiro. E a pior delas acontece no mês de junho! Sim... é esse o fato. Agora vamos às proposições.
Primeiro: não se deite na sua cama no domingo à tarde pra escutar algum acústico MTV. Se está só, todos os seus amigos estão assistindo alguma comédia romântica [acompanhados], não desanime! Tome um banho, passe perfume, coloque a sua roupa de ‘balada’, [se for mulher] faça uma maquiagem fantástica [se for homem, e quiser fazer, liberte-se! Nada contra...], ligue o som no volume máximo [nada de coldplay ou jack johnson, dependendo do caso, aceita-se um “big girls don’t cry” pra esquentar a noite. Os seus amigos da ‘pelada’ nunca saberão disso. Não se reprima!] e dance! Dance até se acabar! Caso tenha ‘algum’ sobrando, compre umas garrafas de vinho. Seja você com você mesmo! E seja feliz!


Segundo: se acabou de dançar? Saia! Já meio tonto, pela bebida ou pela alegria, tanto faz. Passe naquele barzinho “meio-assim” onde você nunca teve a oportunidade de entrar porque a sua ‘galerinha’ não gosta do estilo. Sente-se numa mesa, vazia ou não. Beba, puxe papo, converse com quem nunca conversou antes [só não aceite carona de estranhos...]. Ria, gargalhe, passe vergonha, conte piadas! Levante-se da mesa já tarde... vá para casa... e termine a noite ao som de Alicia Keys [“The Life” proporciona altas rebolations], ou algo do tipo: calmo e dançante, quase um trilha perfeita de strip-tease. E lembre-se: a ordem dos gêneros não altera o produto.
E mesmo que você não faça tudo o que coloquei aqui, ou que se negue a fazer qualquer uma dessas besteiras, o importante é você estar bem! Só, ou não, esteja bem! Feliz, arrumada(o), saudável. Dance! Beba bastante água mineral...

E feliz dia dos namorados! Dos que os tem, dos que não tem, e dos que procuram!

Sem desespero cara... Sem desespero!

domingo, 30 de março de 2008

Latrinas, Duas!



Invenção para as mulheres, útil para os homens.
Como resolver um dos mais antigos problemas da humanidade?



Analisava os comentários feitos a uma crônica de um meu amigo, quando descobri qual seria o tema desse texto que você lê. A crônica era mais um manual descrevendo como se faz uma crônica, e neste, havia uma historinha que incluía comentários sobre uma nova invenção sanitária: os banheiros com duas privadas, lado a lado. Quando digo isso, deixando claro, me refiro a duas privadas sem quaisquer impedimentos entre elas. Não há paredes, cortinas, p.v.c. ou madeirite. São realmente (e fisicamente) dois vasos sanitários juntos em um mesmo local fechado construído para as dejeções sólidas e líquidas. Teoricamente, essa invenção foi pensada em prol das necessidades femininas. Afinal, quase nunca utilizamos o banheiro sozinhas, sempre em dupla e, em alguns casos isolados (como em uma rodada de chope com as amigas, um casamento, ou se uma de nós é vítima de uma excessiva ingestão de álcool que faz com que perca a aparência saudável, e as estribeiras) entramos em bando.

Em meio aos comentários existia uma ou outra indagação sobre a real existência desses banheiros “duplamente latrinados”. Afirmo (queria eu solenemente, mas reconheço que o tema não combina) que os 'boxes' constituídos por dois vasos sanitários (ou privadas, como preferirem) realmente existem. Há alguns meses eu tive a (assustadora) honra de usufruir dessa genial invenção (tecnicamente) útil. Para a minha sorte, nunca tive problemas em utilizar o banheiro sem a companhia de uma amiga, e quando entrei e me deparei com a novidade me senti aliviada por não fazer parte da maioria.

Depois de ler, re-ler, entender (e me assustar) com o fato sobre o qual os leitores da crônica haviam feito os cômicos comentários, decidi, enfim, redigir de forma clara uma conclusão que eu já havia considerado há alguns anos, mas nunca me senti impelida a popularizar. Um apelo feminino, uma necessidade estética e higiênica que nos é negada desde que somos meninas, e que nos persegue durante e após o árduo ofício da vida conjugal.

Digamos que, após anos acompanhando e analisando animais do sexo masculino da raça humana (e isso inclui convívio diário com muitos deles durante anos) pude notar que a invenção do "duplo-vaso-sanitário" seria mais (e, talvez, unicamente) útil nos banheiros masculinos. Melhor dizendo, em qualquer banheiro que um dia poderia ser utilizado por algum homem (invariavelmente: crianças, adolescentes, adultos, homossexuais e idosos).


Minha conclusão, após estudos primorosos (e visões terrivelmente nojentas em banheiros públicos durante todo o tempo demandado pela minha pesquisa altamente enriquecedora) eu descobri (algo que não somente já era descoberto como também já promovia diversos debates e brigas matrimoniais) que o homem simplesmente não possui o menor senso de direção e alvo quando se trata de segurar seu membro fálico e concluir higienicamente a tarefa mais simples que lhe é conferida desde que Deus resolveu pendurar o referido membro na parte inferior do corpo masculino: urinar. Eu não sei se é difícil, se dói, ou se é humanamente impossível simplesmente acertar a maior parte da urina expelida exatamente dentro do enorme buraco com que são constituídos os vasos sanitários de todo o mundo, mas o fato é que os homens não nascem com essa aptidão básica. Na minoria das vezes, um bom treinamento, algo como uma ameaça de separação ou uma acusação diária de falta de respeito, podem resolver de forma expressivamente correta o problema. Na pior das hipóteses, que (infelizmente) constitui a maior parte dos casos, “o pau que nasce torto nunca se endireita”. É aí que entra a mais nova e revolucionária forma de solucionar o problema dessa digressão urinária.

Seria muito mais fácil se eles nos escutassem. Se parassem de achar perfeitamente normal essa pequena disfunção do membro genuinamente masculino. É um direito das mulheres, que devido aos inúmeros e inacreditáveis casos já deveria estar na constituição, quiçá nos sete pecados capitais (que se já são agora dez, poderiam muito bem ser esticados ao décimo primeiro) conseguirem utilizar os vasos de uma forma menos perigosa, sem estarem constantemente à mercê da urina masculina espalhada por toda a borda do objeto sanitário, quando isso não se estende a todo o banheiro, das paredes ao teto.

Não seria justo se a cada vez que um homem entrasse em um banheiro ele fosse obrigado a recolher absorventes espalhados pelo local antes de aliviar-se diante de uma privada limpa e visualmente confortável. Portanto, é injusta a forma como somos obrigadas a utilizar os banheiros (principalmente os públicos, embora esses crimes higiênicos sejam também cometidos dentro das nossas próprias casas). O problema não é sentar, já que a maioria de nós aprende, ainda na infância, a inevitável arte da contorção urinária (nunca sentar-se nos vasos dos banheiros públicos). A grande questão é onde se pisa, a visão trágica e o odor inconfundível da urina regada a álcool. Além de tudo, os homens ainda têm a possibilidade de um “bater um mijão” em pé, no canto escuro da rua; nós não. Portanto, homens (e projetos de homens, que um dia serão maridos, pais e avós) segurem o que têm de segurar, seja lá qual for o esforço demandado pela simples capacidade de acertar o grande alvo à frente! Agora, se for impossível, sobre-humano, ou se simplesmente não dá, procurem um banheiro desses com a nova fórmula anti-paredes-mijadas do século 21: as latrinas duplas! Duas privadas lado a lado podem, no fim das contas, ser extremamente úteis. Se o problema é o falo tortinho, no chão é que a urina não vai cair...


E quem disse que não há mais o que se inventar?

sábado, 15 de março de 2008

Feche a torneira!


Seja um herói
[leia-se clichê]
O fato é que o ser humano está morrendo. A modernidade não trouxe consigo apenas novas descobertas, realizações de antigas utopias, conforto e rapidez. Trouxe, acima de muitas coisas, uma sociedade frígida, cada vez menos humana. Estamos nos esquecendo das nossas origens e, estranhamente, estamos deixando de nos preocupar com o futuro. Isto é, cada um se preocupa intensamente com seu próprio bem-estar, sem entender, no entanto, que esse método egoísta de viver prejudica inclusive a sua própria vida. Deslanchar uma carreira primorosa, ser economicamente imbatível, ter reconhecimento profissional, crescer na vida em detrimento dos anseios de outrem não é saudável para quem é deixado de lado, e muito menos para quem vive com a falsa sensação de sucesso absoluto.

Isso tudo não é exatamente novo. A não ser pelos conceitos inventados após o surgimento do capitalismo, como o salário e a mais valia, toda essa agrura desenvolvida pela sociedade já está aí desde os primórdios da civilização. Caim matou Abel, Luther King foi assassinado em 1968 e Betinho morreu com AIDS, adquirida em uma transfusão de sangue, em 1997. A diferença é que hoje nós temos instrumentos mais hábeis na arte de destruir. Muito mais que a pólvora e os agentes biológicos nocivos à saúde, hoje temos uma refinada ignorância. Pasme ao saber que, após milhares de anos de história, descobertas e invenções, o humano dos seres está à beira de um abismo por causa da propagação e eventual desenvolvimento de uma única palavra que, como se não bastasse carregar em si a ausência de conhecimento, ainda denuncia o despreparo e a falta de vontade para ir atrás desse saber que não existe. É pela ignorância que se chega ao preconceito, ao egoísmo e à morte de tudo aquilo que poucos seres humanos conseguiram, ou morreram tentando difundir: a humanidade.

Toda essa conversa já é muito clichê, eu sei. É complicado escutar, ou ler, coisas desse tipo, quando se tem certeza de que todas as mudanças propostas não passam de idéias utópicas, cheias de sentido, mas sem um pingo de realidade. Todo mundo já sabe que falar é fácil, mas sabe também que agir nem sempre é impossível. Caminhamos ainda (ou tentamos) atrás de mudanças, de novas formas de viver e recriar o nosso mundo, a nossa sociedade. Os nossos pés no chão não nos deixam acreditar na possibilidade de mudar a mentalidade de seis bilhões de pessoas, mas continuamos tentando.

É por esse, e outros inúmeros motivos, que o nosso mundinho pequeno deve ser o primeiro a participar da nova realidade sugerida: mais saúde mental, espiritual e física. O que demais há em deixar o motorista ao lado te ultrapassar, desligar o chuveiro na hora de passar o sabonete, pensar duas vezes na hora de votar, sorrir para o porteiro do prédio, participar de movimentos em favor de causas justas? Coisas bobas? Sim. Para quem acha que gastar 162 litros de água em um banho de dez minutos, levando em consideração que em algumas centenas de anos estaremos guerreando por água potável, é normal, e nem um pouco ignorante.

Mudar o funcionamento de uma sociedade que teve sua origem primeira baseada em um assassinato bíblico, que assistiu à morte de cerca de seis milhões de pessoas no holocausto de 1941, e que aceita essa caminhada livremente insana da corrupção lado a lado com a miséria, é praticamente um ato heróico. Saber que existiram, seguir e reverenciar Mahatma Gandhi, Che Guevara, Dorothy Stang, Frei Betto e cada uma das pessoas que não deixam com que os poucos seres verdadeiramente humanos não sejam esquecidos é o que nos instiga a ter um ponto de esperança e boa vontade, de ler, escutar, agir e acreditar que os heróis ainda existem, e que pode haver um bem aí com você.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Sobre relações


Ela saiu cabisbaixa. Não sei bem o que houve, mas sei que estava triste. Ou decepcionada. Algo assim, desse gênero. As mulheres são estranhas. Hoje em dia eu nem ligo muito. Mas dessa vez eu até pensei em perguntar o que havia acontecido. Criei coragem e tudo, mas cinco minutos depois eu já tinha mudado de idéia. Esperei ela sair. Peguei uma cerveja e deitei no sofá. “Devia ter perguntado como ela está.”
Vi a carteira em cima da mesa. Um papel dentro. Peguei o telefone. Disquei.

_ Fala.
_ Fala o quê?
_ Ué. Você não me ligou?
_ Liguei...

_ Então, fala!
_Calma, não precisa ficar nervosa.
_ Eu não tô nervosa, só com pressa.
_ Com pressa é? Por quê?
_ Porque tô no meio da rua. Tô atrasada. Preciso correr.
_ O que você tinha quando saiu?
_ Como assim?
_ Você. Tava diferente.
_ Eu não.

_ Ah... Então tá. Tchau.
_ Tchau.


Cinco minutos e o telefone toca.

_ Oi.
_Oi. Olha só... Você me ligou só pra dizer isso?
_ É. Fiquei preocupado.
_ Ah... Obrigada por se preocupar comigo.
_ Não. Tudo bem. Afinal, você dormiu aqui.
_ E onde você achou meu telefone?
_ Você esqueceu a carteira, e tinha um cartão seu dentro.
_ Esqueci?
_ É.
_ Droga! Um dia desses esqueço a cabeça.
_ É... Mas eu não mexi não, viu? O cartão tava no bolsinho de fora e... você sabe... é transparente.
_ Sei.
_ Então...
_ Quando eu posso ir pegar?
_ Pegar o quê?
_ A carteira.
_ Ah... Quando você quiser. Provavelmente eu não vou estar mais aqui... Mas você pega na recepção.
_ Tá.
_ Tenho que desligar.
_ Aham...
_ Ah! Peraí... Como é mesmo o seu nome?
_ Mônica...
_ Ah, é.
_ E o seu?
_ Marcelo.
_ É mesmo. Lembrei.

_ Então tá Juliana...
_ É Mônica!

_ Ah é... Desculpa. Tô meio sonso hoje. Tchau Mônica.
_ Tchau.

“Acho que ela seria a mulher ideal, se não fosse tão quase-perfeita. Corpo, olhos, beijo. Muito inteligente. Muito safada também. É... Seria ideal.” Mas os homens têm medo das mulheres ideais, ou das quase-perfeitas. Não daria certo. Ideal demais enjoa.

Deixo a carteira na recepção. Pago a conta. Vou embora.

CONCLUSÃO MASCULINA: “Boa de cama. Quem sabe um dia ela me liga.”


Saí cabisbaixa. Foi tudo muito bom. A noite, a cama, o vinho... E ele! Ah... Homem quase-perfeito! Lindo, inteligente, educado e bom de cama! Saí desinteressada, pra não achar que eu tava dando bola. Ele nem perguntou. Aí fiquei nervosa. Atravessei a rua e o telefone toca. Era ele. “Podia não atender pra largar de ser besta. Mas se ele tá ligando, é porque gostou de mim. Talvez queira marcar hoje à noite.” Atendo rude.


_ Fala.
_ Fala o quê?
_ Ué. Você não me ligou?
_ Liguei...
_ Então, fala!
_Calma, não precisa ficar nervosa.
_ Eu não tô nervosa, só com pressa.
_ Com pressa é? Por quê?
_ Porque tô no meio da rua. Tô atrasada. Preciso correr.
_ O que você tinha quando saiu?
_ Como assim?
_ Você. Tava diferente.
_ Eu não.
_ Ah... Então tá. Tchau.
_ Tchau.

“Como os homens podem ser assim? Insensíveis, hipócritas, arrogantes!” Deixei minha carteira em cima da mesa, com o telefone à vista. Era um motivo pra eu voltar lá ainda hoje, e uma dica “ME LIGUE”! Os homens são todos burros mesmo! Desde que nascem precisam de um empurrãozinho, dicas, ajuda feminina. “Se a mãe não ensina a segurar o pinto na hora de urinar morre urinando na borda do vaso. E se não é a mãe, sobra pra esposa, namorada, noiva... Ou pra prostituta do fim de semana. No fim, eles sempre precisam de uma forcinha”. Pego o telefone. Nada de ligação. Então... Eu ligo.

_ Oi.
_Oi. Olha só... Você me ligou só pra dizer isso?
_ É. Fiquei preocupado.
_ Ah... Obrigada por se preocupar comigo.
_ Não. Tudo bem. Afinal, você dormiu aqui.
_ E onde você achou meu telefone?
_ Você esqueceu a carteira, e tinha um cartão seu dentro.
_ Esqueci? _ É. _ Droga! Um dia desses esqueço a cabeça.
_ É... Mas eu não mexi não, viu? O cartão tava no bolsinho de fora e... você sabe... é transparente.
_ Sei.
_ Então...
_ Quando eu posso ir pegar?
_ Pegar o quê?
_ A carteira.
_ Ah... Quando você quiser. Provavelmente eu não vou estar mais aqui... Mas você pega na recepção.
_ Tá.
_ Tenho que desligar.
_ Aham...
_ Ah! Peraí... Como é mesmo o seu nome?
_ Mônica...
_ Ah, é.
_ E o seu?
_ Marcelo.
_ É mesmo. Lembrei.
_ Então tá Juliana...
_ É Mônica!
_ Ah é... Desculpa. Tô meio sonso hoje. Tchau Mônica.
_ Tchau.

"Inacreditável! Transou comigo a noite inteira e não lembrou meu nome. Melhor fingir que também não sei pra não fazer papel de besta.”

Devia ter morrido virgem! E solteira. Virar beata. Devia nem ter nascido. Odeio os homens. Odeio aquele cara idiota e estúpido! Nunca mais quero ver ele na minha frente!

CONCLUSÃO FEMININA: “ Eu to completamente apaixonada!”

domingo, 18 de novembro de 2007

Não foi como ela pensou que seria


E NÃO TERIA SIDO DESSA FORMA SE ELA SOUBESSE QUE SERIA ASSIM.


Sempre acreditou que morreria aos 24. Mas se assustava com a idéia, cada vez que pensava na vida improdutiva que tinha. Nunca se lembrariam dela, ou de algum feito importante que por ventura tivesse constituído. Não chorariam sua morte mais que alguns dias. Ninguém tentaria suicídio por sua causa. Nenhum de seus amigos cantaria sua música preferida no seu funeral. Suas flores ficariam sempre murchas. Seu túmulo estaria sempre empoeirado. Sua vida não seria mais que vagas lembranças de uma ou outra pessoa, quando vissem uma foto, ou escutassem uma de suas gírias favoritas. Seu violão nunca mais seria tocado. Seus textos nunca mais seriam lidos. Morreria sensivelmente, se é que existe morrer dessa forma. Morreria como as pessoas que aproveitam suas vidas da forma mais ineficaz morrem: de câncer, aids ou cirrose. Morreria sozinha, enfim. E suas idéias e esperanças morreriam com ela, pois não tinha apóstolos, ou alunos, que pudessem continuar seus planos. Não havia quem pudesse transgredir suas revelações, suas descobertas e seus desejos mais íntimos, para que o mundo ficasse um dia sabendo o quanto seu íntimo era poético e sábio.
Morreu aos 22, em um acidente trágico. Voltava da sua primeira tarde de autógrafos. Publicou um livro de sucesso. Seu velório estava cheio. Pessoas saindo de si, gritando seu nome aos quatro ventos. Enterraram-na vestida de roxo, o vestido preferido. O caixão, pesado de flores, foi coberto ao som de “A Mulher”, de Caetano Veloso. Um amigo tocou, e outros tantos cantaram. Um dos diversos amantes que teve tentou suicídio. Uma amiga batizou a filha com seu nome, anos depois. Foi lembrada nas rodas de violão, nos esquemas de sexta à noite. Foi lembrada nas revistas de literatura e nas publicações artísticas. Sua sobrinha tornou-se uma grande escritora, e escreveu um livro sobre sua vida. Ela entrou para a história.

Se soubesse disso ela não teria fumado tanto, bebido tanto, aproveitado a vida além dos riscos da morte.
Se não tivesse aproveitado a vida além dos riscos da morte não teria entrado para a história.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Ele saiu e eu comecei a escrever no diário


O relógio marcava três horas. A porta abriu devagar, e um vento gelado entrou, e cortou todo o meu corpo. Eu estava sentada, e esperava ansiosa. O vulto atravessou a porta, apenas o vulto. Não defini as formas precisamente, mas sabia que era ele. O cheiro que lembrava amêndoas doces, a forma vagarosa como andava. Era ele. Sentou-se ao meu lado, calado. Olhei discretamente, e sei que ele percebeu meu olhar que, mesmo reservado, era penetrante. Senti que ele também me olhava. Olhava-me habilmente, olhava-me toda, como um lobo analisa sua vítima antes do ataque final. Tentei não pensar no que acontecia, no que sentia. Mas não consegui. Minha mente me comprometia, e me entregava. Meu olhar faceiro me entregava. Cada gesto singelo entregava meus desejos e vontades. Ele sabia o que eu queria, e queria que eu soubesse que entendia cada olhar, cada vontade. Segurou de leve meus cabelos, quase como uma carícia. Afagou minha nuca de forma dócil, e por um momento, um curto e precioso momento, me senti livre para fazer e dizer tudo o que pensava. Mas não o fiz. E isso não seria necessário, nunca. Virou-se um pouco e me beijou. Primeiro sobriamente, como se contabilizasse cada passo a ser dado, como se o fizesse maquinado. Afastei-me, num gesto ríspido. Ele sentiu. Sabia o que eu queria. Sabia que a forma como me beijou não era a correta. Não era a esperada. Olhou-me nos olhos, e senti um calafrio que sugava minhas forças, meus pensamentos. Uma vontade ameaçadora percorreu meu corpo. O rosto, o pescoço, a barriga, as pernas. Tudo em mim pedia um abraço intenso. Tudo em mim o pedia. E só a ele. Inclinou-se devagar, quase parando. Quase uma daquelas cenas de filme, em câmera lenta. A cena mais bela que já vi. Beijou-me novamente, e dessa vez parecia enfurecido. Gostosamente enfurecido. Beijou-me como se procurasse arrancar de mim uma verdade, um chiado, um suspiro, ou seja lá o que for. Foi nessa hora que perdi os sentidos, perdi o controle. Seu beijo penetrou em mim como algo novo, como se nunca o tivesse sentido antes. E foram tantos, e tantas vezes. Me senti uma adolescente, naquelas horas em que o medo e a angústia tomam conta de todas as reações, e as planejam, e fazem com que sejamos tolos. Segurou novamente meus cabelos, fortemente. Acariciou meu pescoço, meu colo, meus braços. Deixou que seu hálito quente percorresse meu corpo. Cada gesto seu se intensificava, a cada segundo. Senti meu corpo leve. Eu quase flutuava em meio a seus afagos. Suas mãos percorreram meus membros, um a um, de uma forma tão sincera que me assustava. Meus desejos se materializaram na ponta dos dedos, dos dele e dos meus. Minhas pernas ultrapassaram os limites da sanidade, do corpo e da alma. Minha respiração intensificava a dele, cada uma em seu tempo, num compasso perfeito, num ritmo latente, que se desenfreava pouco a pouco. Nos abraçamos de forma intensa. Seus lábios se desvencilharam dos meus e encontraram o resto. O resto que na verdade define o todo. O todo dos ombros, dos seios, do ventre, das coxas. E todo o mais. Um prazer indescritível me tomou conta. Eu tomei o prazer, e o fiz parte de mim. Sem vergonha, sem intervenções. Era a hora de me entregar às minhas vontades ocultas, que me faziam nervosa, incompleta. Era a hora de senti-lo mais uma vez como parte de mim. Os dois em um só ser. Os dois ocupando o mesmo espaço, de corpo e alma. E de sexo. Minhas unhas procuraram sua pele, e eu deixei. Deixei que minha vontade se tornasse ação. Deixei que ele morresse extasiado enquanto me fazia dele. Só dele. Deixei que ele escutasse claramente minhas palavras maliciosas, meus gemidos mordazes. Deixei que sentisse e se deliciasse com meus movimentos ríspidos, impuros. Mais que os movimentos, minha mente era impura. Minha utópica liberdade se tornava real. Real e excitante. É incrível como segundos de prazer intenso transformam-se em anos, décadas, talvez séculos. Sim, ficamos ali durante séculos, parados, extasiados. Olhamos o teto e nada mais. Não havia coragem, nem vontade, suficientes para dizer uma só palavra. Formar sílabas era uma tarefa árdua, extremamente sofrida. O único som que atravessava meus lábios com certa facilidade era o som dos suspiros, dos gemidos baixos, de quem acaba de se deliciar por inteiro, completa, de corpo e de mente. Não conseguia segurar meu ímpeto. Não conseguia impor limites a mim mesma. Minhas mãos, mesmo cansadas, começaram novamente a percorrer seu corpo. Seu corpo tão completo, tão perfeito para ele, do jeito que era e do jeito que funcionava. A forma como estremecia a cada gesto meu, a cada toque. A forma como suas pernas se ajeitavam por entre as minhas, entrecruzando-as e descruzando, em movimentos rápidos e impensados. Minhas mãos começaram a se derreter pelo corpo todo, estirado ao meu lado, furiosamente curiosas e promíscuas. Não uma promiscuidade qualquer, mas uma promiscuidade exaltada, de quem admira, de quem deseja ardente, mas, acima de tudo, apaixonadamente. Nos sentimos novamente viris. Viris tal qual dois adolescentes, capazes das mais ordinárias aventuras. E vivos, acima de tudo! Ordinária... É uma bela palavra. Uma palavra que explica de forma singular o máximo de transgressões que fizemos naquele quarto, naquela noite. Um amor acabado, um casamento, uma vida inteira passada. Tudo amaldiçoado por uma única noite de paixão, de vida! De realização, enfim. Nos comemos, um ao outro, diversas vezes e por diversos meios. Comi seu corpo com meu olhar infame, e ele a mim. Cada parte e cada pedaço. Nos amamos, com paixão. Nos seduzimos, nos usamos, nos gozamos, em cada gesto e a cada segundo. E nos deixamos. Como num passe de mágica fajuta, onde os espectadores sabem exatamente para onde vai o coelho que estava na cartola. Nos deixamos da mesma forma como nos amamos: efêmera e faceiramente, da forma mais cruel que se pode imaginar. Ele saiu pela porta da mesma forma que entrou por ela, e da mesma forma que entrou e saiu de mim: rápido e silenciosamente.
[Esta história - e sua personagem - são fictícias. Infelizmente! - risos sórdidos.]

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Escrevi um romance policial


A violência não mede mais vítima, motivo ou lugar. Não que esses fatores antes fossem levados em conta, mas chegamos a um ponto crítico: as pessoas praticam e assistem à atos desumanos (ou subumanos) com uma naturalidade impressionante. Na tarde de ontem, por volta das 15h, duas pessoas foram assassinadas no parque Municipal Baieté, zona sul de Salvador (BA).
José Alves Carvalho (32) era feirante no bairro Pencas há 17 anos, conhecido e admirado pela maioria das pessoas que freqüentam a região nos domingos movimentados pela feira. “Ele era extremamente calmo, engraçado. Era um palhaço. Ninguém nunca imaginou que ele seria capaz de fazer isso”, disse a cabeleireira Sabrina Tamanduá (32), amiga das vítimas. Tamanduá testemunhou toda a história, e afirmou ter ficado horrorizada com o que viu: “Foi uma cena que eu nunca vou esquecer, mesmo porque, os três eram meus amigos.” Carvalho namorou a estudante Juliana Castro Anísia (26) durante 7 anos. O casal havia se desentendido há cerca de 2 meses, durante uma festa no Cantil Juana, zona norte da cidade. “Os dois já não estavam se dando muito bem há algum tempo. A Juliana tinha me falado que queria terminar, mas nunca me disse que estava gostando de outra pessoa, por isso eu não acho que era traição”, explicou Sabrina. Depois do trabalho, José foi ao Baieté, como sempre fazia aos domingos. “Quando ele chegou e viu a Juliana de abraços com o Jota, ele ficou fora de si. Jota estava entregando um sorvete para a Jú e, se não me engano, uma rosa também. José ficou enfurecido. Todo mundo viu que ele até tentou se segurar, mas o cara [Jota] ficava pirraçando. Foi tudo muito rápido e confuso. A única coisa que eu vi foi José avançando nele com uma faca muito grande na mão. Depois, só conseguimos ver sangue, mas ainda não dava pra saber de quem”, relembrou a cabeleireira.
Jota era o pedreiro João Armando da Silva (29), primo de José. Os dois tinham certa rivalidade, desde que José começou namorar Juliana, em março de 2000. “Jota era apaixonado pela namorada do primo. Isso todo mundo sabia. E eles já haviam terminado há 2 meses. Não era traição. Foi ciúmes mesmo, isso não teve nada a ver com orgulho ferido. Isso não existe!”, disse Sabrina, indignada com a atitude do feirante.
Por ciúmes, orgulho ferido, ou o quer que seja, José Alves assassinou o primo, João Armando, e vice-versa. Segundo as testemunhas, o feirante correu enfurecido em direção a Jota, e só quando ele chegou bem perto, as pessoas puderam ver que ele estava armado com um facão. “Não deu tempo de fazer nada. Quando a gente viu, um já tinha matado o outro. Nunca vi uma coisa tão rápida,” contou o feirante Pedro Alves Rodrigues (31), amigo de José há mais de 13 anos.
José matou o primo com três facadas, mas, ao mesmo tempo, levou uma única facada no peito, que o levaria à morte poucos minutos depois. “Quem podia imaginar que Jota estava armado? Aliás, ninguém nem viu que José estava! Foi uma coisa impressionante. Não sei se mais impressionante, ou mais horripilante. Primo matando primo por causa de mulher!”, disse Pedro.
Juliana ficou em estado de choque, e está internada no Hospital Psiquiátrico Aroldo Costa. A estudante não ficou ferida, mas não consegue conversar com ninguém desde a tarde de ontem. Os corpos de José Aves e João Armando serão sepultados hoje, às 17h, no cemitério da Pietra Sul. Fica a indignação e de quem conhecia os jovens, levados, pelas circunstâncias, a cometer um assassinato. Os dois eram pessoas simples, de classe baixa, analfabetos. Talvez, no final das contas, a culpa não tenha sido apenas deles. Tenha sido de todos nós.
“As pessoas por aqui são assim, sabe? Qualquer coisa é motivo de morte. Também, eu não julgo não. É gente sem instrução, como eu mesma, que passa fome quase todo o dia do ano.” [Sabrina Tamanduá]

Auto-viagens


Eu me lembro de ter me apaixonado pela primeira vez quando eu tinha onze anos. Foi uma coisa estranha porque, de repente, as barbies e cia. não tinham mais a mesma graça. Essa foi a parte ruim. Eu larguei as bonecas cedo demais, e hoje sinto falta delas. Talvez se tivesse brincado até os quinze... Mas enfim! Aos onze, minha primeira paixão. Lembro de ter chorado quando ele não me escolheu para seu par na quadrilha da escola. Lembro de ter sorrido no dia do terceiro ensaio, quando a grande escolhida faltou e tivemos que ensaiar juntos. Eu e ele. Acho que foi um daqueles momentos mágicos da vida. Daqueles que se procura aproveitar cada segundo, mas que, quanto mais você aproveita, mais rápido ele passa. E no final de vinte minutos de ensaio, a escolhida chegou! Meu primeiro momento mágico com um homem não durou mais que vinte minutos! Foi a partir daí que eu soube que os homens, em qualquer lugar, em qualquer época da vida e com qualquer idade... são passageiros!

Depois desse vieram outros. Todos platônicos e imbecis. É engraçado como os homens são imbecis quando se tem onze anos. Mais tarde, eu descobriria que, aos dezoito, dezenove, vinte anos... eles são mais imbecis ainda! A primeira paixão real, não foi paixão. Foi só um beijo. Eu tinha doze anos. Uma criança. Só agora eu entendo porque o beijo foi tão ruim. Nada pessoal! O garoto era uma gracinha, acho que devia ter uns dezesseis anos, ou menos. Não sei ao certo. Sei que ele achava que eu já tinha beijado. Mas não tinha! Fiquei assustada, tremi como vara verde, suei frio... gelado! E então, ele veio com a frase: “aqui ta bom pra você?”. Se “aqui ta bom pra” mim? Eu ali, pálida, amedrontada, esperando o bote final! Pensando, segundo após segundo, o que seria de mim se o meu pai soubesse o que eu fazia naquele momento. E ele me pergunta se “aqui ta bom pra” mim? “Ta!”. Foi a resposta. Assim, simples assim, eu assinei minha carta de suicídio. Pronto, havia entrado, enfim, no mundo dos relacionamentos!

Depois desse episódio constrangedor, só fui beijar novamente aos treze. Um ano depois! E isso só aconteceu porque eu sofri uma pressão imensurável das minhas “amigas”! Quem diz que as amigas não te induzem a fazer “coisas”... está enganado! Todas as nossas atitudes, nossas compras, os carinhas que nós beijamos, são analisados e escolhidos pelas amigas.

Pais, segurem suas filhas! Sejam seletivos com as companhias de suas crianças! As amigas manipulam a vida umas das outras. É fato.

Esse segundo beijo foi um pouco melhor. Mas ainda achei que faltava algo de cinematográfico. Acho que me sentar no colo dele não ajudou muito. Uma amiga da minha mãe ter visto a cena só piorou as coisas. Mas logo acabou, e eu, mais uma vez, agradeci por isso. Menos curto que da primeira vez, e mais longo do que deveria ter sido. Ora, eu me entendo! Estava traumatizada.

Daí por diante o número de beijos aumentou, e o espaço de tempo entre eles diminuiu. Mas todos homens! Todos passageiros. Passageiros e imbecis. As paixões foram se rebaixando ao posto de simples “ficar”. E era difícil “ficar” mais de três vezes com a mesmo pessoa. Primeiro, porque os meus pretendentes nunca tinham mais de dezesseis anos. E os homens nunca querem nada sério antes dos vinte (e olha que eu estou sendo muito boazinha nesses vinte!). Ou seja, as adolescentes só servem como diversão. Acreditem! Nada daquilo que ele falava com você quando vocês estavam sozinhos era verdade. Nunca é; e antes dos vinte é menos ainda! Segundo, bem, eu não estava mesmo preparada para um relacionamento de mais de uma semana. Mais tarde descobri que, até hoje, eu não estou. Ninguém está. Você nunca está preparada porque uma relação nunca é igual à outra! Os erros e os acertos são diferentes, as experiências são diferentes e, sem dúvida, o seu limite é completamente diferente. Quando você passa de um relacionamento para outro você procura explorar os seus limites. Cada vez mais. E não digo, apenas, limites físicos. Você tenta se entregar mais, confiar mais, agradar mais... enfim, você tenta errar menos!

O primeiro namorado foi com quatorze anos. Três meses. Nada muito sério, mas tudo muito incrível. O primeiro beijo é sempre especial (mesmo que não tenha sido muito bom), mas nada se compara ao primeiro namorado. Nada mesmo. Nem a “primeira vez” se compara! O primeiro namorado é algo perigoso, transcendental. Talvez eu esteja exagerando um pouco, mas não do meu ponto de vista! Eu nem pensava dessa forma há alguns anos. Mas, no mês passado, quando depois de quatro anos eu revi meu primeiro namorado, entendi que aquela foi uma fase inesquecível da minha vida. E que nada, muito menos as pessoas, continuam as mesmas! Por isso, cada minuto ao lado de alguém de quem se gosta, deve ser aproveitado de forma singular, porque você e essa pessoa nunca mais se reencontrarão! Não dessa mesma forma.

O segundo namorado veio aos dezesseis. Quatro meses. Era a época das descobertas. Descobri que trair não é uma coisa bacana. E descobri que eu tinha coragem suficiente para admitir meus erros e não cometê-los novamente. Descobri que eu sou capaz de fazer alguém sofrer, e que isso me faz sofrer também. Descobri que existem pessoas no mundo capazes de perdoar traições, que amam além das mentiras, e quem fariam de tudo para não me perder! É uma pena... Descobri tudo isso tarde demais!

Enfim, chegamos ao último relacionamento. O terceiro namorado! Claro que, entre os três relacionamentos mais longos da minha vida eu tive outros. Curtos, mas não menos importantes. Nunca fiquei por ficar, sem gostar, etc. Obviamente, uns mais, outros menos, iam sendo alvo de páginas e páginas de coisinhas românticas no meu diário. Cada um teve sua devida importância. O terceiro foi dos dezessete aos dezenove! Dois anos. Exatos dois anos. Foi a melhor e a pior fase da minha vida. É quando você acha que está, enfim, preparada para “aquela” relação de mais de uma semana! Quem sabe mais de seis meses. Mais de um ano. E você chega aos dois e dá com os burros n’água! Tristeza? Nenhuma. Aprendizado é a palavra! Aprendi que ser traída é tão ruim quanto trair. E aprendi que eu não sou capaz de perdoar traições, nem amar além das mentiras! Nem, muito menos, faria de tudo para não perder alguém... São detalhes que a gente aprende, com tempo. Eu aprendi muito desde o meu primeiro beijo, mas estou certa de que tenho muito ainda o que experimentar. Experiência! É chave... Hoje eu sei porquê eu só via que os meus relacionamentos tinham sido especiais depois que eles acabavam: eu não tinha experiência. Hoje, é fácil transformar um único beijo em um momento inesquecível. Mas veja bem! Isso não significa que eu aprendi a me relacionar. Ninguém nunca aprende. Sempre falta quebrar a cara mais uma vez.

É um suicídio... constante.